Por Marli Geralda Teixeira
Cidade do Salvador, 12 de agosto de 1798. Aquele não seria um dia comum. Logo
cedo, seus habitantes ficaram sabendo, por ouvirem dizer ou mesmo por terem constatado,
que papéis suspeitos tinham amanhecido afixados em paredes e portas de locais movimentados
da cidade. Era um dia de domingo, e a notícia se espalhou entre os que assistiam à
missa, iam comprar alimentos ou descansavam à porta das casas.
Foram, ao todo, onze papéis, chamados pelas autoridades de “papéis sediciosos”,
pois seu conteúdo conclamava o povo da cidade - povo bahiense - à sedição contra Portugal
e contra a ordem vigente na Capitania. Estavam afixados em locais de destaque, sendo
um deles colado próximo ao palácio do próprio governador, D. Fernando José de Portugal e
Castro. Eram manuscritos, tinta comum em papel comum. Foram afixados durante a noite,
provavelmente por mais de uma pessoa, dados os locais onde apareceram: esquina da
Praça do Palácio, Rua de Baixo de São Bento, Portas do Carmo, Açougue da Praia, Igreja
da Sé e do Passo.
É impossível, ainda hoje, como o foi naquele momento, indicar, com
precisão, o responsável ou responsáveis por ações tão temerárias: escrever e afixar papéis
de conteúdo tão explosivo [...].
INTRODUÇÃO
Final do século XVIII. Eram decorridos quase 300 anos desde que os portugueses se
apossaram das terras do Brasil.
Ao longo desses três séculos, pode-se destacar como
acontecimentos de extrema significância:
a) a instalação do sistema colonial amparado pelo “exclusivo comercial”;
b) a produção e a exportação de produtos agrícolas que garantiam vantagens
para os comerciantes e o Governo Português;
c) a expansão das terras do Brasil em direção ao interior e à região Sul, o que
veio a garantir à Colônia uma área muito além daquela definida, no final do
século XV pelo Tratado de Tordesilhas;
d) o enfrentamento às pressões de comerciantes e países estrangeiros, por parte
do Governo Colonial com o apoio da população da colônia.
Os habitantes da Colônia, mesmo contribuindo para a concretização dos interesses
metropolitanos, continuavam a sofrer a exploração que se intensificava a cada momento,
justificada pela política de monopólios e pelo papel desempenhado pelo Brasil no contexto
da dominação colonial portuguesa no mundo da época.
Apesar dos inúmeros movimentos que demonstram o confronto de interesses entre a metrópole e os
colonos, nos quais o país dominante impunha condições extorsivas à Colônia, tendo como
resultado vários dos conflitos ocorridos, não se falava ainda, todavia, em separação da colônia
frente à metrópole, pelo que esses episódios são classificados como conflitos de colonos
x metrópole.
No fim do século XVIII, mais especificamente nas duas últimas décadas, ocorreram
dois movimentos que, por seu significado e implicações sociais, ocupariam um lugar especial
no âmbito das relações entre colônia e metrópole: trata-se da Conjuração Mineira, no
ano de 1789, e da Conjuração Baiana, em 1798. Ambos considerados movimentos
anticoliniais.
As condições específicas que marcavam o fim do século XVIII no mundo europeu vão
definir o perfil especial desses movimentos. Em primeiro lugar a conjuntura externa no que
diz respeito aos fatores econômicos, políticos e ideológicos registrava o início de um
processo de transformações, que se aprofundaria no século XIX, das quais resultariam a
instalação da sociedade capitalista.
Fatores Externos:
a) Revolução industrial
b) Crise do sistema Colonial
c) Independência dos Estados Unidos
d) Revoluções Burguesas na Europa
Objetivos:
Luis Henrique Dias Tavares (1959), historiador incansável na investigação desse episódio,
distingue cinco categorias de idéias entre os documentos políticos que circularam
naqueles dias de agosto de 1798:
a) liberdade (independência), república, comércio livre,
igualdade de direitos, separação entre Igreja e Estado, identificadas neste trabalho através
dos fragmentos retirados da reprodução desses documentos, como estão publicados por
Mattoso (1969).
b) Liberdade – “A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento:a
liberdade he a doçura da vida, o descanso do homem (...) a liberdade he o repouso e bem
aventurança do mundo”(Aviso nº 3).
c) República – “O poderoso e Magnífico Povo Bahiense Republicano desta cidade da
Bahia Republicana.” (Aviso n º 9).
d) Comércio Livre – “...Medidas tomadas para o socorro Estrangeiro e progresso do comércio
de Açúcar, Tabaco e pau-brasil e todos os mais gêneros de negócio (...) com tanto
que aqui virão todos os Estrangeiros tendo porto aberto...”(Aviso nº9).
e) Igualdade de direitos – “ cada hum soldado he cidadão mormente os homens pardos e
preto que virem escornados e abandonados, todos serão iguais, não haverá diferença só
haverá liberdade, igualdade e fraternidade.” (Aviso nº 10).
f) Separação entre Igreja e Estado – “...manda que seja punido com pena de morte
natural para sempre e todo e qualquer padre que no púlpito, confessionário,exortação [...]
se atrever a persuadir aos ignorantes e fanáticos com o que for contra a liberdade, igualdade
e fraternidade do Povo...”(Prelo n º 8).
Condenação:
a) Quatro deles foram condenados à morte por enforcamento e executados
na Praça da Piedade, localizada bem no centro da Cidade do Salvador, sendo eles 02 Soldados
- Lucas Dantas de Amorim Torres
- Luís Gonzaga das Virgens, 02 Alfaiates
- Manuel Faustino Santos Lira (aprendiz)
- João de Deus do Nascimento (mestre). Seus nomes e memória tornados “malditos” até a terceira geração. Os corpos dos
quatro enforcados foram esquartejados e expostos nos lugares públicos, à época, intensamente
frequentados;
b) Sete foram condenados a ser jogados na costa ocidental da África, fora dos domínios de
Portugal. Era uma outra forma de condenação à morte;
c) Pedro Leão de Aguilar Pantoja foi degredado por dez anos no presídio de Benguela;
d) O escravo Cosme Damião Pereira Bastos, a cinco anos em Angola. Os escravos Inácio Pires e Manuel José de Vera Cruz foram condenados a quinhentos açoites, ficando os seus senhores
obrigados a vendê-los para fora da Capitania da Bahia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.